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Editorial: Adeus a Ziraldo, meu professor, meu amigo, a expressão máxima da iniciativa artística no Brasil.

Marcio N Amaral



O Brasil perdeu um de seus mais brilhantes e amados talentos com o falecimento de Ziraldo Alves Pinto, o cartunista, escritor e pintor cujo legado transcende gerações. Nascido em 24 de outubro de 1932, em Caratinga, Minas Gerais, Ziraldo tornou-se uma figura inesquecível no cenário artístico brasileiro, deixando uma marca indelével com suas criações coloridas, cheias de vida e crítica social.

Ziraldo foi um pioneiro, não apenas em suas obras artísticas, mas também como um dos fundadores da Escola Panamericana de Arte nos anos 60. Este projeto educacional revolucionário, que utilizava correspondências para ensinar arte a distância, reflete a sua visão inovadora e o seu compromisso com a disseminação da cultura e educação no Brasil. Tive a honra de ser um dos primeiros alunos dessa instituição, uma experiência que moldou profundamente minha trajetória no mundo das artes, dos quadrinhos e do cinema.

A importância de Ziraldo para o cenário artístico do Brasil é imensurável. Ele trouxe ao país uma nova forma de expressão por meio de suas personagens icônicas, revistas em quadrinhos e tirinhas. Seu trabalho mais conhecido, “O Menino Maluquinho”, publicado em 1980, é uma celebração da infância, da imaginação e da liberdade, e continua a encantar leitores de todas as idades. Além disso, suas colaborações com importantes jornais, revistas e editoras ampliaram o alcance de sua voz crítica e humorística, abordando temas sociais e políticos com uma perspicácia única.


O legado de Ziraldo também inclui sua colaboração no livro de arte que fizemos juntos, “A Construção da Utopia”, juntamente com Tonico Mercador, outra expressão literária e artística de Minas Gerais. Esse trabalho, entre outros, demonstra sua habilidade em unir arte e literatura para explorar os sonhos e aspirações humanas, sempre com um olhar esperançoso sobre o futuro.

Muitos indagam sobre as raízes da minha insatisfação com o provincianismo cultural, tão profundamente entranhado nas fundações de nossa educação formal. A resposta reside na figura de um senhor cujas ideias e personagens transcenderam as páginas para desafiar as coisas como são, cuja obra no “O Pasquim” agitou as águas estagnadas da conformidade, cercado por uma roda de amigos ilustres, entre eles o notável Henfil. Ziraldo Alves Pinto, com seu traço inconfundível e sua mente fervilhante, foi um farol de possibilidades, iluminando caminhos menos percorridos com a luz de seu gênio criativo.

Ziraldo não apenas criou, mas recriou o panorama cultural brasileiro, convidando-nos a enxergar além das fronteiras do convencional. Com o “O Menino Maluquinho”, ele nos apresentou a um mundo onde a imaginação não conhece limites, onde a alegria e a tristeza dançam numa harmonia sublime, refletindo a complexidade da condição humana. Suas colaborações com grandes mentes, como o cartunista Henfil, forjaram na imprensa e na arte uma resistência lúdica e penetrante contra a censura e a opressão.

Fundador da Escola Panamericana de Arte, Ziraldo foi pioneiro na educação a distância, usando correspondências para democratizar o acesso à educação artística em uma época em que tal inovação era quase inimaginável. Este feito, por si só, é um testemunho de seu compromisso inabalável com a quebra de barreiras educacionais, culturais e geográficas.
O Pasquim, jornal satírico que se tornou símbolo da resistência ao regime militar brasileiro, serviu como plataforma para Ziraldo e seus contemporâneos expressarem, através do humor e da sátira, o descontentamento com as injustiças sociais e políticas da época. Foi aqui que Ziraldo, ao lado de gigantes como Henfil, afiou a caneta contra a tirania, usando o riso como arma e a crítica como escudo.

Ziraldo praticou o que muitos apenas pregam: um dever de casa com o Brasil, transformando sua arte e suas ideias em veículos de mudança, educação e reflexão. Sua partida deixa um vazio imensurável, mas seu legado é imortal, um tesouro nacional que continua a inspirar artistas, escritores e pensadores a enxergar o mundo por meio de uma lente mais colorida, crítica e esperançosa.

Minha insatisfação com o provincianismo cultural enraizado em nossa educação formal nasce da comparação com a liberdade de pensamento e expressão que Ziraldo defendeu e exemplificou. Seu trabalho, sua vida e seu círculo de influência são a prova viva de que a cultura pode ser um espaço de expansão infinita, não um confinamento de ideias e criatividade. Nessa jornada em direção a um horizonte mais amplo, Ziraldo foi, e continua sendo, um guia essencial.

Ziraldo foi, sem dúvida, um dos grandes artistas que praticou seu “Dever de Casa com o Brasil”, utilizando sua arte para refletir, criticar e celebrar a cultura e a sociedade brasileiras. Sua contribuição para o mundo da arte e da literatura é um tesouro nacional, e sua falta é profundamente sentida por aqueles que tiveram o prazer de conhecer seu trabalho e por mim, pessoalmente, por ter tido o privilégio de aprender com ele e colaborar em projetos que enriqueceram nossa cultura.


Ao refletirmos sobre a vida e obra de Ziraldo, é impossível não sentir uma mistura de tristeza pela sua partida e gratidão por tudo o que ele nos deixou. Sua arte e suas ideias viverão para sempre, inspirando gerações presentes e futuras a olhar o mundo com mais cor, criatividade e humanidade. Ziraldo não era apenas um cartunista ou um artista; ele era um visionário que viu o potencial da arte como uma ferramenta para mudança, educação e alegria.

O Brasil e o mundo são infinitamente mais ricos devido a sua contribuição. Obrigado, Ziraldo, por tudo.
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Ziraldo fez historia. E deixa marca registrada em cada página vivida. O Pasquim, na minha opinião, foi uma das suas maiores obras, dele em conjunto com seus parceiros. O jornal abriu luz e edificou um espaço para uma respirada de uma sociedade sofrida que procurava um caminho livre, nos difíceis anos 70s. O Pasquim foi um desses caminhos.

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Mais uma reflexão importante e oportuna deste grande autor e jornalista.

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